O debate sobre a proibição de antimicrobianos na produção agropecuária brasileira alcançou um ponto crítico com a recente movimentação da indústria de processamento junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) pleiteando o alinhamento das restrições nacionais às moléculas já banidas pelo regulamento europeu, uma postura que, na prática, representa um grave retrocesso e expõe a imaturidade estrutural da cadeia produtiva brasileira.
O cerne da questão não reside na necessidade de atender, ou não, às imposições dos países compradores, mas na forma desarticulada e oportunista com que os elos da cadeia se posicionam diante de um desafio que deveria ser coletivo, e pelo bem da verdade, tem sido assim desde o início dessa discussão, lá em 2019. De um lado, o produtor rural brasileiro se vê pressionado a adotar práticas que geram custos adicionais significativos. Por outro lado, a indústria de processamento pensando somente em não perder o mercado.
Ao exigir que o campo elimine o uso de antimicrobianos sem um plano de compensação ou incentivo é transferir o ônus de uma exigência de mercado para quem já opera com margens estreitas, mas até aí, cada um com seus problemas, afinal a relação custo de produção e margem de lucro é intrínseca da atividade. Mas atuar para garantir que o produto chegue às prateleiras dos consumidores de maneira que atenda às exigências também é de responsabilidade da indústria.
Mas o problema é que, nunca foi dada a devida importância para esse problema que todos sabiam que iria acontecer no ano de 2026. O departamento de saúde animal do MAPA, que é quem deveria ser o protagonista na construção de uma alternativa tecnicamente viável, cobrava o setor privado sem aquele entusiasmo típico do setor público. Já o setor privado, só passou a sentar na mesa para discutir efetivamente o tema no último ano, como se estivesse à espera de algo que prorrogasse a decisão do velho continente.
Deu no que deu! E se nada for feito, no início de setembro estaremos proibidos de mandar carne bovina para a Europa. É um claro sinal de que, em uma guerra, todos perdem.
O cenário ideal para o Brasil não é o de alinhamento cego às regras europeias, mas o de construção de um modelo próprio, competitivo e que garanta a segregação do uso. O continente europeu é, de fato, um destino relevante para produtos de alto valor agregado e representa um selo de qualidade que qualquer país exportador almeja, devendo ser visto como uma referência de qualidade, e o Brasil precisa desenvolver suas métricas de segurança, baseadas em ciência, viabilidade econômica e diálogo setorial, e não em pressões unilaterais de um elo da cadeia.
Este é o momento de construir pontes, não de explodi-las.
A cadeia produtiva brasileira precisa amadurecer e reconhecer que a competitividade internacional não se constrói com imposições, mas com parcerias sólidas e responsabilidades compartilhadas. Exigir do produtor o cumprimento de padrões europeus sem lhe garantir o devido retorno financeiro é insustentável a longo prazo. Da mesma forma, a indústria não pode se furtar ao papel de parceira no desenvolvimento de alternativas viáveis e na remuneração justa pelo esforço de adequação, cobrando seu serviço do consumidor, afinal ele sim é o todo poderoso.
O Brasil tem potencial para ser líder global em produção com qualidade e sustentabilidade, mas isso exige coesão interna, respeito entre os elos da cadeia e uma visão estratégica que vá além do curto prazo. O caminho não é a cópia acrítica de regulamentações alheias, mas a construção de um modelo que equilibre rastreabilidade, sanidade, produtividade e justiça econômica para todos os envolvidos.
*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria


