O Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado anualmente em 5 de junho, encontra o Brasil em uma posição singular e contraditória. De um lado, o país ostenta números e práticas que o colocam na vanguarda da produção sustentável global; de outro, a ausência de uma ferramenta estratégica impede que esse potencial seja plenamente reconhecido e recompensado nos mercados mais exigentes.
É inegável que o Brasil tem muito a comemorar, afinal somos o maior produtor mundial de proteína, fibras e energia limpa, um feito que poucas nações conseguem igualar. A redução consistente das taxas de desmatamento, especialmente na Amazônia, demonstra um compromisso renovado com a preservação ambiental, ainda que os desafios persistam, porém, esses avanços não são fruto do acaso, mas sim de décadas de investimento em ciência e tecnologia aplicadas ao campo.
O setor agropecuário brasileiro adota em escala comercial práticas que muitos países ainda discutem em nível experimental. O etanol de cana-de-açúcar, por exemplo, é um biocombustível que reduz em até 90% as emissões de gases de efeito estufa em comparação à gasolina, consolidando o Brasil como referência em mobilidade sustentável. O sistema de plantio direto, que elimina a aração do solo e mantém a palhada sobre a terra, revolucionou a conservação dos recursos hídricos e a saúde do solo em milhões de hectares.
A integração lavoura-pecuária-floresta, por sua vez, é um modelo de produção que sequestra carbono, recupera pastagens degradadas e diversifica a renda do produtor rural, tudo em uma mesma área. Mais recentemente, o avanço dos defensivos e fertilizantes biológicos, os bioinsumos, tem reduzido a dependência de químicos sintéticos, promovendo um equilíbrio ecológico nas lavouras. Essas tecnologias, somadas a um rigoroso controle sanitário e a programas de certificação voluntária, já posicionam o Brasil como um dos líderes mundiais em agricultura de baixo carbono.
No entanto, toda essa excelência técnica e ambiental encontra uma barreira invisível, mas intransponível, quando o assunto é acesso aos mercados premium, a falta de um programa de rastreabilidade individual, que permita seguir cada animal desde o campo até o prato do consumidor, é o calcanhar de Aquiles da produção nacional. Enquanto nossos principais concorrentes já implementam sistemas que garantem a origem, o manejo e o impacto ambiental de cada produto, o Brasil ainda opera com controles fragmentados e ineficientes.
Essa lacuna abre espaço para desconfianças, acusações infundadas e, pior, para que produtores sérios sejam penalizados pela falta de transparência de uma minoria. Sem a rastreabilidade individual, o país não consegue comprovar, com a precisão que o mercado exige, que aquele corte de carne de uma área legal, sem desmatamento e com boas práticas.
O resultado é paradoxal: o Brasil produz com qualidade e sustentabilidade, mas não consegue ocupar as melhores prateleiras do planeta, que pagam prêmios por garantias ambientais e sociais.
A solução não está em abandonar as boas práticas que já adotamos, mas em integrá-las a um sistema digital robusto, de baixo custo e amplamente difundido. Iniciativas como o Passaporte da Carne Bovina e plataformas de monitoramento já existem, mas precisam de escala e de um marco regulatório que as torne obrigatórias ou economicamente irresistíveis.
O Brasil está a um passo de transformar sua produção em um ativo global de valor inquestionável. Temos a tecnologia, o conhecimento e o produto, mas falta a decisão de implementar a rastreabilidade individual como padrão, e não como exceção. Quando isso acontecer, o país não apenas comemorará o Dia Mundial do Meio Ambiente com mais orgulho, mas também colherá os frutos de uma liderança que já é real, mas ainda não é plenamente reconhecida.
*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria


