Cada um por sim e Deus por todos

por Luciano Vacari

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A desunião da cadeia da pecuária de corte no Brasil é um paradoxo que se torna cada vez mais insustentável, afinal possuímos o maior rebanho comercial do mundo, somos líderes históricos em exportação, mas internamente operamos como um conjunto de feudos isolados. Cada elo da cadeia, do produtor ao frigorífico, passando pela indústria de insumos e pelo varejo, defende seu território com unhas e dentes, o que é legítimo em um ambiente de negócios competitivo.

No entanto, essa fragmentação deixou de ser uma questão estratégica para se tornar um entrave sistêmico, e a guerra de posições, onde cada um só quer saber de proteger o seu quinhão, está corroendo a competitividade da proteína animal brasileira no cenário global, e o preço dessa desunião é alto e mensurável.

Semanalmente, a China, nosso maior comprador, suspende a habilitação de algum frigorífico brasileiro sob a alegação de excesso de resíduos químicos na carne, e essas suspensões não são eventos isolados, são o reflexo de uma cadeia que não consegue alinhar responsabilidades e rastreabilidade. Enquanto isso, estamos fora da lista de países autorizados a exportar para a União Europeia, um mercado de alto valor agregado que exige conformidade sanitária e ambiental rigorosa.

A perda não é apenas financeira, mas também reputacional. O Brasil, que deveria ser sinônimo de produção sustentável e segura, é visto com desconfiança por compradores exigentes, justamente por não conseguir demonstrar coesão em seus processos produtivos, e enfrenta gargalos que são inaceitáveis para um país que se pretende líder.

Um exemplo emblemático é a dificuldade crônica em oferecer o número mínimo necessário de doses de vacinas contra clostridiose para atender ao rebanho, já que essa é uma doença prevenível, de manejo básico, mas a falta de planejamento integrado entre governo, laboratórios, distribuidores e produtores resulta em desabastecimento e aumento da mortalidade animal. Até quando iremos continuar perdendo tempo, dinheiro e mercados?

A resposta está na ausência de uma visão coletiva, onde cada ator da cadeia prioriza sua margem imediata, e o sistema como um todo perde eficiência. É preciso, portanto, colocar os pontos em comum sobre a mesa e deixar de lado as disputas menores.

A defesa legítima de cada segmento não pode se sobrepor à necessidade de construir uma agenda unificada. O produtor precisa de rentabilidade, o frigorífico de escala e a indústria de insumos de previsibilidade. Esses interesses não são antagônicos, e sim, eles podem convergir se houver coordenação. A China não suspende frigoríficos por acaso, suspende porque há resíduos que poderiam ser evitados com protocolos compartilhados. A União Europeia não nos exclui por preconceito, exclui porque não apresentamos garantias sistêmicas. E a falta de vacinas não é um acidente de mercado, é o resultado de uma cadeia que não dialoga.

O tamanho do rebanho brasileiro é uma vantagem natural, mas não é suficiente para sustentar a liderança, até porque, em um mercado global cada vez mais regulado e competitivo, a desunião é um luxo que não podemos mais pagar. Ou a pecuária de corte brasileira aprende a articular seus interesses em torno de padrões comuns de qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade, ou continuará perdendo espaço para concorrentes que, mesmo com rebanhos menores, oferecem o que o mercado exige: previsibilidade, confiança e garantia de origem.

A guerra interna precisa acabar, não por generosidade, mas por pragmatismo, porque o inimigo não está dentro da cadeia; está fora!

*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria

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