Fora da lista

por Luciano Vacari

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Ao longo das últimas décadas, a ciência e a pesquisa permitiram o desenvolvimento de tecnologias que otimizam a produção de alimentos com total segurança ao consumidor, como os melhoradores de desempenho, hormônios e antibióticos. Essas ferramentas são aplicadas sob rigoroso controle sanitário e respaldo de órgãos reguladores nacionais e internacionais, garantindo que a proteína animal chegue à mesa do consumidor com qualidade e total ausência de riscos à saúde.

Porém, como sempre tem um porém, o mercado global não é homogêneo e existem compradores extremamente exigentes que optam por não adquirir produtos que tenham feito uso dessas tecnologias. Esse é um direito legítimo do consumidor, e cabe ao Brasil, como líder global, respeitar essa demanda e oferecer garantias robustas para atender a todos os perfis de mercado, do mais ao menos restritivo. E esse episódio com a União Europeia é um ótimo exemplo.

Mais do que perder um faturamento de 2 bilhões de dólares, ficar de fora da lista do mercado europeu significa um duro golpe na reputação da produção nacional, pois evidencia que não conseguimos oferecer as garantias de controle do não uso das tecnologias listadas. E esse é o ponto, não adianta banir o uso da tecnologia, isso seria um enorme retrocesso e a confirmação de que não somos capazes. Precisamos sim, dar garantias para os mercados de que somos capazes de segregar o uso, e em um cenário de concorrência global, essa capacidade é um diferencial competitivo estratégico.

Isso não apenas atende às exigências dos mercados mais restritivos, como também agrega valor ao produto brasileiro, que pode ser oferecido com diferentes níveis de certificação.

E para que essa segmentação seja viável, a rastreabilidade individual dos animais torna-se mais do que uma ferramenta logística: ela é a base para qualquer tipo de segregação. Sem um sistema que identifique cada animal desde a origem até o abate, não é possível atestar, com credibilidade, que um lote atende a padrões específicos, como a ausência de antibióticos ou o uso controlado de hormônios.

No entanto, a implementação eficaz de qualquer ferramenta de segregação depende do comprometimento de todos os elos da cadeia de valor, do produtor rural à indústria de processamento, já que cada etapa precisa registrar e compartilhar informações de forma padronizada e confiável. O produtor rural, por exemplo, deve registrar o nascimento, a alimentação, as medicações e o manejo sanitário de cada animal. A indústria de processamento, por sua vez, precisa integrar esses dados ao sistema de abate e desossa, garantindo que o produto final mantenha a identidade de origem.

E nesse contexto, as fábricas de insumos, como as de ração e medicamentos veterinários, desempenham um papel central, afinal são elas que fornecem os insumos que determinam as características do produto final. Sem o compromisso dessas indústrias em rotular, registrar e rastrear seus próprios produtos, todo o processo de produção da carne fica incompleto.

Portanto, é urgente que o setor como um todo avance na criação de um portfólio de produtos brasileiros que demonstre, de forma clara e auditável, as características de cada oferta. Esse portfólio deve incluir desde carnes produzidas com todas as tecnologias disponíveis até aquelas que atendem a protocolos específicos, como orgânicos, livres de antibióticos ou com uso restrito de hormônios.

A construção desse catálogo de mercadorias exige investimento em sistemas de informação, capacitação técnica e alinhamento entre todos os agentes da cadeia. O Brasil já possui a escala e a competência técnica para liderar esse movimento. Agora, precisa demonstrar ao mundo que é capaz de oferecer garantias à altura da sua posição de maior produtor de proteína animal, respeitando a diversidade de exigências dos mercados consumidores e consolidando sua reputação como fornecedor confiável, seguro e inovador.

*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria

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