Vender mais ou vender melhor?

por Luciano Vacari

por Luciano Vacari

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin

Às vésperas de soar os sinos do Natal, a China anunciou a retomada das importações de carne bovina brasileira. A notícia chega a tempo de recuperar o saldo das exportações da proteína, que poderiam ficam no vermelho caso o mercado continuasse fechado em dezembro.
A China é responsável por comprar quase 60% das exportações brasileiras de carne bovina e em pouco tempo, de 2018 para cá, os chineses passaram a ocupar lugar de destaque no rol de clientes. Mesmo que o consumo per capita nessa região seja muito baixo, dado o tamanho da população, o resultado nas exportações é relevante para o nosso país.
E como o que vale é vender, rapidamente as indústrias e os produtores brasileiros voltaram seus olhos só para China. Porém, a situação vivida nesse ano é importante para que estratégias de diversificação de mercado sejam estabelecidas. Em 2000, 60% das exportações de carne bovina brasileira iam para a União Europeia. E menos de 10% para a Ásia. Essa relação hoje é exatamente a inversa.
O Brasil precisa e deve continuar olhando para a Ásia. Mas é importante estar atento para não colocar os ovos em uma cesta só. Agregar valor à carne bovina, para o mercado europeu, por exemplo, é estratégico. Desenvolver instrumentos que comprovem a rastreabilidade, a sustentabilidade e não relação da produção com o desmatamento ilegal também.
Há uma mútua dependência entre o Brasil e a China. China e Hong Kong são os maiores compradores da carne bovina brasileira. Mas, considerando o total comprado por esses dois países, o Brasil também é o maior fornecedor. Ou seja, a China depende também do Brasil. Isso vale não apenas para a carne bovina, mas para outros produtos, como carne de frango e, de maneira ainda mais forte, para a soja.
Ainda que haja uma interdependência, os chineses seguem buscando por diversificação, como com os nossos vizinhos, Argentina, Uruguai e Paraguai. O Brasil também deve estar atento. Comemorar a reabertura, as tendências de médio e longo prazo de aumento da demanda, mas não esquecer do “velho mundo” e do seu potencial de agregação de valor.
Há alguns anos atrás, o foco dos produtores que tinham condições de investimentos era produzir animais para a cota Hilton. Uma norma imposta pela União Europeia para limitar volume e estabelecer critérios de qualidade para carne enviada para os países que compõem o bloco. Rastreabilidade, idade e certificação estão entre os requisitos.
Atualmente, me arrisco dizer que alguns produtores desconhecem este mercado que, além de exigir, remunera. Isso porque o animal comercializado ganha um diferencial por arroba, além do excedente já pago aos animais vendidos para a Europa.
Temos muito a comemorar com a volta da China, temos. Mas não é motivo para virar as cotas para outros mercados.
Este episódio deixou claro que apesar de ser importante, o Brasil não é indispensável. Este deve ser sempre o lema do setor produtivo, produzir mais, mas também produzir melhor, e vender, sem paixão.

*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e diretor da Neo Agro Consultoria e Comunicação.

Veja mais artigos de opinião​

Inês é morta!

É decepcionante, afinal, recebemos o primeiro aviso em 2019, e era tempo mais do que suficiente para todos, isso mesmo, todos os envolvidos na cadeia de produção da carne bovina brasileira encontrarem uma maneira de

Um sopro de esperança

Quando falamos de bioinsumos, não estamos tratando apenas de um trâmite burocrático, mas de uma ferramenta que impacta diretamente o sustento de milhares de famílias, a saúde do solo e a viabilidade de uma produção

Um crime contra a ciência

É absolutamente revoltante testemunhar o que está acontecendo com a regulamentação dos bioinsumos no Brasil, afinal enquanto o mundo clama por práticas agrícolas sustentáveis e o próprio país se vangloria de ser o celeiro do