Sempre na dor

por Luciano Vacari

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É de enlouquecer qualquer um que acompanhe de perto o dia a dia do campo brasileiro, onde a cada safra, a cada ciclo é a mesma ladainha: o produtor rural é colocado contra a parede, tendo que recorrer a soluções caras e muitas vezes já quase ineficientes para lidar com pragas e doenças. E a pergunta que não quer calar ecoa como um grito abafado pela burocracia: por que tem que ser sempre na dor? Por que o acesso ao que há de mais inovador, inteligente e sustentável para a agricultura precisa ser tratado como um tabu, uma disputa de poder ou, pior, um campo de batalha ideológica?

Estou falando, claro, dos bioinsumos. Não há exagero em afirmar que essa é a maior revolução silenciosa à disposição do setor produtivo brasileiro, uma ferramenta que poderia beneficiar igualmente o pequeno agricultor familiar e o grande produtor, já que substituem os defensivos químicos, recuperam a saúde do solo, promovem o equilíbrio ecológico dentro da lavoura e de quebra ainda reduzem custos no longo prazo. Mas o que se vê na prática é uma luta inglória para que essa tecnologia saia do papel e chegue, de fato, ao campo.

O problema é que, no Brasil, a inovação esbarra em um muro de interesses institucionais, comerciais e políticos que parece intransponível. Enquanto o Ministério da Agricultura tenta, com dificuldade, avançar em marcos regulatórios que viabilizem a produção e o uso de bioinsumos, o Ministério do Meio Ambiente e o da Saúde entram com o pé atrás, com uma visão por vezes ideológica que engessa qualquer movimento. Parece que a prioridade não é resolver o problema do produtor rural, mas garantir que cada pasta mantenha sua fatia de influência e controle.

Os interesses comerciais são ferozes, afinal a indústria química, gigante e consolidada, não vai abrir mão de seu mercado sem luta. E, convenhamos, ela tem força de lobby que faz qualquer política pública parecer frágil. O que se vê é uma tentativa de desqualificar os bioinsumos, de jogar dúvidas sobre sua eficácia, de criar barreiras regulatórias que só favorecem quem já está estabelecido. É um verdadeiro desserviço ao país, que poderia estar na vanguarda de uma agricultura regenerativa, de baixo carbono e mais resiliente.

Mas o mais revoltante é que o discurso ideológico contamina tudo.

De um lado, os que defendem a química a qualquer custo, como se fosse a única saída para alimentar o mundo, ignorando os passivos ambientais e de saúde pública. Do outro, os que demonizam qualquer insumo, como se a agricultura pudesse voltar a ser como era há cem anos, sem considerar a escala e a complexidade da produção atual. E, no meio, está o agricultor, que não quer ser herói de nenhuma cartilha, mas apenas ter acesso a ferramentas que funcionem, que sejam viáveis economicamente e que não destruam o solo que ele vai deixar para os filhos.

Não se trata de abolir a química, mas de oferecer alternativas. Trata-se de permitir que o produtor tenha autonomia para escolher o melhor caminho. E, nesse sentido, os bioinsumos são uma ferramenta democrática, que pode ser produzida na própria fazenda, que reduz a dependência externa e que coloca o Brasil em uma posição de liderança global no debate sobre sustentabilidade. Mas, enquanto o jogo de poder continuar, enquanto a briga for sobre quem manda e não sobre o que é melhor, a resposta para a pergunta: por que tem que ser sempre na dor?

Chegou a hora de agir pela inteligência, pela visão de futuro e pela responsabilidade. Se continuarmos nessa toada de atrapalhar para não avançar, o preço a pagar será muito mais alto do que qualquer um de nós pode imaginar, e perdermos uma janela irrecuperável de tempo, esforço, pesquisa e dinheiro.

*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria.

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