Se fazer entender

por Luciano Vacari

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Imagina a seguinte cena: um especialista do agronegócio, cheio de dados brilhantes sobre produtividade, rastreabilidade e sustentabilidade. Sua apresentação é impecável, os gráficos saltam da tela, mas com um pequeno detalhe: do outro lado está a Dona Maria, que por acaso estava trabalhando no local da palestra, e ficou no cantinho vendo a apresentação. A Dona Maria não entendeu absolutamente nada. Ela quer saber se o tomate é docinho, se a alface está fresca, se a carne é macia.

Esse é o maior desafio no agro hoje, a comunicação!

Falamos tanto em fora da porteira, furar a bolha, em levar a mensagem além das cercas das propriedades. Mas de que adianta falar se quem ouve não entende? É como tentar explicar astrofísica usando equações diferenciais para uma criança de cinco anos. A intenção é boa, o resultado é nulo. A comunicação se torna uma ferramenta importante apenas quando é, de fato, uma via de mão dupla, com a mensagem chegando intacta e sendo compreendida.

O grande erro, e um muito comum, é pregar para o convertido. Ficamos confortáveis falando com nossos pares, usando jargões como ILP, agricultura de precisão ou barreira fitossanitária. É uma conversa gostosa, fluida, onde todos se entendem com um piscar de olhos. O problema é que isso não expande nosso alcance. Não conquistamos novos corações e mentes. É um clube fechado onde todos se conhecem e já concordam entre si.

Mas existe uma situação pior do que pregar para convertidos: é pregar para surdos. A mensagem bate e volta. E aí mora o perigo, porque no vácuo da informação, nascem os mitos, as fake news e os preconceitos contra o setor.

O desafio central, portanto, é fazer a Dona Maria entender. Ela é a peça-chave. Ela representa o consumidor final, a sociedade urbana. Como fazer ela compreender a complexidade do modelo produtivo brasileiro? Como explicar que a dor do produtor não é só o preço da commodity, mas é a logística, o clima, a burocracia?

A resposta está numa palavra simples: adaptação. Adequar a linguagem ao público é a chave mestra. Em vez de suinocultura tecnificada com bem-estar animal, que tal “a gente cuida dos porquinhos com muito carinho e conforto para a carne ficar ainda melhor”? Em vez de grãos com alto potencial genético, que tal “sementes especiais que fazem a comida render mais no prato”?

Trata-se de contar histórias. Mostrar o rosto por trás do alimento. Explicar que a qualidade do produto está diretamente ligada ao cuidado na propriedade. Falar do potencial do agro brasileiro não com números de exportação, mas com o sabor da fruta, o cheiro do pão fresco com nosso trigo, a maciez do churrasco no final de semana.

Quando conseguirmos traduzir a realidade do campo para a linguagem da cidade, as Donas Maria vão entender que existe muito trabalho, suor e dedicação naquele alimento, e mais, vai valorizar tanto o produto quanto o produtor. É a comunicação fazendo seu papel, levar a informação, as narrativas e as histórias de quem conta, de maneira que quem as ouve se imagina no lugar onde tudo aconteceu. 

*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria.

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