É profundamente triste constatar que, num mundo onde um simples brinquedo infantil carrega selos e mais selos de certificação, onde um móvel precisa comprovar até a origem da madeira e a resistência de cada parafuso, onde um automóvel tem cada pneu, cada bateria e cada componente auditados por terceiros, o pecuarista brasileiro ainda se encolha diante da ideia de dizer de onde vêm seus animais e quais insumos utiliza.
A comparação não é retórica vazia, mas ela escancara um desequilíbrio que deveria envergonhar qualquer cadeia produtiva que se pretenda moderna. Se a indústria aceita, há décadas, o processo de certificação privada independente como condição para vender, por que a pecuária insiste em tratar a transparência como ameaça?
O momento é, absurdamente, o mais favorável em muito tempo. Os preços recebidos pelos animais atingiram patamares que os produtores não viam há anos, ou melhor, nunca viram. Há caixa, há margem, há fôlego para investir em rastreabilidade e controle de insumos.
E, no entanto, a falta de transparência persiste com a mesma teimosia dos anos 1920, como se o setor vivesse numa bolha alheia às exigências dos mercados consumidores, que já não aceitam comprar carne sem saber sua procedência. É inadmissível que, diante de uma janela de oportunidade tão clara, a resposta dominante continue sendo o silêncio defensivo e o receio de expor processos que, em sua imensa maioria, deveriam ser motivo de orgulho, não de esconderijo.
Mas o argumento de que a certificação por terceira parte é burocracia cara ou desnecessária não se sustenta, afinal ela é exatamente o que dá segurança e confiabilidade a qualquer sistema produtivo.
Sem auditoria independente, a palavra do produtor vale pouco no mercado internacional, e o comprador não tem como distinguir quem cumpre as regras de quem apenas diz cumprir. A ausência de transparência não protege ninguém, e pior, ela nivela todos por baixo, penaliza o pecuarista sério e entrega o setor à desconfiança generalizada.
Quem tem processos limpos deveria ser o primeiro a exigir a rastreabilidade individual e a certificação, porque são elas que separam o bom do ruim e valoriza o esforço de quem faz certo.
É de causar estranheza que a pecuária brasileira, com todo o seu peso econômico e toda a sua capacidade de exportação, ainda tropece num quesito básico que outros setores resolveram há gerações.
Não estamos mais no período onde a relação de troca era o melhor indicador da fazenda, e precisávamos abrir cada vez áreas para produzir. Hoje, produzimos mais quilos de carne por hectare ano, e isso se chama eficiência!
Dizer a origem dos animais e controlar os insumos utilizados não é favor ao consumidor nem concessão a ONGs, e sim um requisito mínimo de sobrevivência, já que o medo de dar transparência revela menos sobre exigências externas e mais sobre a fragilidade interna de quem prefere a penumbra à luz, e enquanto esse receio ditar o tom, o setor continuará desperdiçando o melhor momento de preços em décadas e colecionando atrasos que já deveriam ter sido superados há muito tempo.
Senhores, é hora de mostrar como e de onde veio, e separar de uma vez por todas o joio do trigo.
*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria.


