Nossa própria cegueira

por Luciano Vacari

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A dependência do Brasil em relação à China como principal comprador de carne bovina é uma realidade que poucos ousam encarar de frente. Durante anos, ouvimos o discurso confortável de que os chineses nos forçaram a produzir animais mais jovens e mais pesados, resultando em mais quilos de carne por hectare por ano. Fomos, sim, empurrados a ser mais eficientes.

Mas a que custo? A verdade é que essa eficiência foi construída sob a égide de um gigante que, agora, começa a revelar suas próprias exigências ocultas. E o que quase ninguém sabe, ou finge não saber, é que o acordo comercial entre Brasil e China, assinado em 2015, já previa a rastreabilidade individual. Os chineses, no entanto, sempre fizeram vistas grossas a esse detalhe. Sempre.

E nós, claro, nunca cobramos, nunca nos preparamos, nunca levamos a sério.

Agora, em 2026, a Europa fez valer os avisos e tirou o Brasil da lista de autorizados a exportar carne bovina para lá. Foi um Deus nos acuda. Um escândalo. Um desespero nos frigoríficos, nos portos, nos escritórios de Brasília. A Europa, sempre nosso importador mais exigente, sempre pagando mais pelo produto brasileiro, mas exigindo muito mais, como a rastreabilidade individual, finalmente disse basta.

E nós, que nos acostumamos a vender para a China sem cumprir as mesmas regras, ficamos atônitos, como se a Europa fosse a vilã da história. Como se não tivéssemos sido avisados. Como se a rastreabilidade individual fosse um capricho europeu, e não uma cláusula assinada há mais de uma década com os próprios chineses.

Pois bem. A pergunta que ninguém quer fazer é a mais óbvia: e se a China também decidir fechar as portas? Já imaginou? O fim do mundo ou a era da picanha barata?

Agora, com a Europa fora do jogo, a dependência da China se torna ainda mais sufocante. E se os chineses resolverem, de uma hora para outra, exigir a rastreabilidade individual que sempre ignoraram? Estamos prontos? Claro que não. Nunca estivemos. Nunca nos preparamos para isso. Sempre achamos que o gigante asiático seria eternamente complacente, eternamente disposto a comprar sem perguntar demais.

A verdade é que fomos negligentes. A Europa nos deu décadas de aviso. A China nos deu um acordo que previa exatamente o que a Europa exigia. E nós? Fizemos ouvidos moucos. Preferimos a ilusão do lucro fácil, da carne vendida a granel, sem rastreio, sem transparência.

Agora, o castelo de cartas começa a ruir. E o pior, o nosso plano B, que aliás é muito bom, só irá realmente produzir efeitos práticos daqui a 2 anos. E se a China também nos deixar sem comprador, não será o fim do mundo. Será o fim de um modelo. A era da picanha barata? Talvez. Mas também a era da carne sem rastreabilidade, sem valor agregado, sem respeito às regras que nós mesmos assinamos.

A picanha barata pode até aparecer nas mesas brasileiras, mas será o preço de uma humilhação comercial sem precedentes. E ninguém, absolutamente ninguém, poderá dizer que não fomos avisados. A Europa avisou. O acordo com a China avisou. Nós é que preferimos não ouvir. Agora, resta saber se ainda há tempo para aprender. Ou se vamos continuar culpando os outros pela nossa própria cegueira.

*Luciano Vacari é gestor de agronegócios e CEO da NeoAgro Consultoria.

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